(In) Coerências

cadernos de pele e papel transformados em bytes

19.5.07

Saber



- Eu sei-me.
Dizia ela em tom de desafio, sabendo saber-se.

- Eu sei-te.

Dizia ele crendo, querendo sabê-la.

- Os outros não sabem nada.
Dizia ele. Ela também o sabia.
Essa verdade pertencia-lhes.

- Tu não me sabes!
Parecia-lhe uma afronta aquela pretensão que ele tinha de dizer sabê-la.
Ainda assim, desejava que ele a soubesse… Um pouco, o suficiente.

Talvez um dia venham a saber se alguma vez se souberam.



Entretanto...
Ela continua a brincar com o colar e sorri a pensar na palavra Saber.

13.5.07

O silêncio de quem adormeceu num banco de jardim pintado de vermelho.
O silêncio de quem sonhou com um outro futuro.

9.4.07

Um desenho?
Um desenho nunca está acabado.

Um projecto?
Um projecto nunca está acabado.

Havia já uns anos que ouvia estas frases com alguma frequência.
Os professores repetiam-nas como se declamassem poesia – a poesia da infinitude –

E um texto?
Nunca lhe haviam dito que um texto nunca estava acabado.
Inquietavam-se as pontas dos dedos.
Roçava-as umas nas outras, numa dança lenta e suave.
E olhos postos, aguardava a impossibilidade de ver as palavras a permanecerem no papel.
Mais uma vez as palavras, teimavam em fazer voos rasantes.
Frases soltas.
Intenções.

E um texto?

7.3.07

Pareço a Alice?


"Poderia dizer-me, por favor, que caminho deverei tomar a partir daqui?" – pergunta Alice.

"Isso depende muito de onde queres ir" – responde o Gato.

"Não me interessa muito onde." – respondeu Alice.

"Então, não interess a que caminho tomas." - disse o Gato.

"Oh, e chegarás com certeza" – afirmou o Gato, "se andares o tempo suficiente."

(Excerto de um diálogo entre Alice e o Gato de Cheshire, in Alice no País das Maravilhas)

4.3.07

Acordou numa manhã fria,
Mais fria do que a noite que tinha abraçado.

Num sono que queria que fosse profundo.
Um sono vazio de sonhos.
Não era tempo de sonhar.

As asas?

Arrumou-as antes de adormecer.
Não era tempo de voar.


Foram as saudades que a acordaram – as saudades de si.

Quis despir-se do pó que se tinha acumulado no esquecimento de saber quem era.
As gotas de chuva foram abrindo rios no corpo.
Aos seus pés ficou uma lama fina.
Podia ver-se reflectida em tons e texturas disformes que não saberia descrever.


















Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre O'Neill






Porque assim começou.
Porque só assim faria sentido recomeçar.

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